Como a rotina pode ser aliada da produção intelectual

capa_livro-ritualsRecentemente, terminei de ler Daily Rituals, que detalha a rotina de trabalho de escritores, artistas, cientistas e personalidades das mais diversas áreas. Ao tratar de diferentes modos de desenvolver uma rotina criativa e produtiva, o livro expõe também os dilemas de pessoas que, tendo muito ou pouco tempo livre, acharam um meio de fazer o melhor possível com suas horas produtivas e se tornaram referência em suas áreas de atuação.

O compilado traz a rotina de Karl Marx, Woody Allen, Agatha Christie, Leo Tolstoy, Charles Dickens, Pablo Picasso e Oliver Sacks, além de outras dezenas, muitos que eu nem conhecia. O livro é bacana, porém, raso. O ponto alto foi perceber a relação da rotina dessas pessoas com sua produção intelectual. Há casos em que os autores citados se forçavam a escrever um número mínimo de páginas por dia, ou passar um determinado tempo em frente à tela em função de produzir algo, mesmo que depois fosse descartado.

São ótimos exemplos que mostram que “inspiração” é uma falácia, e que a maioria das mentes brilhantes e criativas citadas se dedicaram e ainda se dedicam a longas horas de estudo, treino, prática e pesquisa, com horários rigorosos para comer, dormir e se divertir. Rotina é fonte de produtividade. Não tem milagre, não tem desculpa. Tem organização e suor. E um pouco de diversão, pra manter a criatividade em alta.

Rotina (criativa?) de pesquisa científica

Ao contrário de pesquisadores das Ciências Biológicas, da Saúde, da Terra e até das Exatas – cujo trabalho de pesquisa frequentemente está relacionado à permanência em laboratórios, realização de testes e pesquisas de campo -, nas Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas é mais comum que as pesquisas tenham um grande período dedicado à leitura e à escrita, ainda que também possam incluir trabalhos de campo e atividades laboratoriais.

Eu sempre me pego pensando sobre essas diferenças quando as pessoas me perguntam o que estou fazendo no doutorado, sobre o que é minha pesquisa e, afinal, o que é que eu FAÇO mesmo. Bem, eu leio muito. Também acompanho a comunidade que compõe meu objeto de estudo em sites e redes sociais, tomando nota de suas ações, diálogos, parcerias e atividades (uma das vantagens de estudar coisas da internet é poder fazer tudo isso sentada no conforto do lar). A maior parte do tempo, passo em frente ao computador, lendo, escrevendo, lendo mais um pouco.

Eu poderia fazer minha pesquisa de qualquer lugar do mundo, mas acho que minha casa é o local que mais me dá estrutura para trabalhar. Seria um sonho ter um espaço de trabalho adequado na UFMG mas, ultimamente, não temos nem acesso ao prédio ou à biblioteca, então, a gente se vira com home office mesmo. O que eu fiz ao longo desse primeiro ano do doutorado foi tentar estabelecer uma rotina de trabalho diária, de segunda a sexta, para não deixar as tarefas acumularem e os prazos me atropelarem.  Nos fins de semana, me permito descansar sem sentimento de culpa. Mas, se for preciso, passo sábados e domingos inteiros em função de um artigo, por exemplo.

Pra mim, a ideia de ter uma rotina é muito importante. Hora pra dormir e hora pra acordar. Por mais flexível que seja meu dia, tento fazer as coisas dentro do projeto semanal de trabalho, dando alguma margem para mudanças, mas sempre voltando ao plano. Vários detalhes fazem a diferença, vou compartilhar alguns a seguir:

Dormir bem é fundamental.

Acordar bem disposta, também. Eu durmo 8 horas por noite. Sempre ou quase sempre. Durmo cedo: às 22h já estou deitada, mesmo que eu fique lendo por mais uma hora, até às 23h, em média. Geralmente, essa leitura da noite não é acadêmica, é por prazer. Não leio para estudar à noite, leio porque gosto.

Ler por prazer é necessário

Não entendo os colegas que dizem que passam quatro anos do doutorado sem ler nada que não seja relacionado à tese. Ler seu autor preferido, ler poesia, ler literatura estrangeira, qualquer coisa que ajude a distrair e aliviar a pressão da pesquisa é importante e faz bem – inclusive, amplia seu vocabulário e ajuda a aprimorar a redação. As pessoas têm tempo pra fazer maratona de série e não têm tempo pra ler por prazer? É uma questão de escolha, né? Eu tento ler pelo menos um livro novo por mês e leio vários ao mesmo tempo (registro tudo no Skoob, pra quem quiser saber o que ando lendo).

Em que período do dia você é mais produtivo?

Isso vai de cada um, mas meu trabalho sempre rende muito bem pela manhã. Como eu durmo cedo, consigo acordar cedo (ainda que mal humorada) e, geralmente, trabalho de 8h às 12h com muita concentração, resolvendo várias coisas ao mesmo tempo. É meu melhor período para ler estudando, quando tenho mais foco. Vai de cada um perceber que período do dia ou da noite é mais produtivo e tirar melhor proveito dessas horas. À tarde eu geralmente resolvo coisas “na rua” ou vou pra Universidade (tem monitoria, grupo de pesquisa, enfim, outras atividades…).

Para se organizar: aplicativos, agenda, tabelas…

Eu uso um aplicativo gratuito chamado Todoist que tem feito maravilhas na minha rotina. Ele funciona no celular e sincroniza com o computador. Não abro mão das agendas de papel, mas o aplicativo é prático porque permite inserir tarefas recorrentes (Ex.: Todo dia de manhã, levar o cachorro pra passear) e ordená-las por prioridade (o passeio do cãozinho é SEMPRE a primeira coisa do meu dia porque, se ele não passear, não me dá sossego para trabalhar). Na agenda eu coloco informações mais detalhadas sobre as tarefas, no app, geralmente só um lembrete. Tem gente que prefere anotar tudo no seu celular. Mas não dá pra confiar só na memória quando se tem um zilhão de coisas para fazer, leituras para organizar, providências e prazos pra cumprir.

Rituais diários para uma vida organizada

Ainda vou fazer um outro post sobre como o Todoist e o Evernote me ajudaram a ser mais produtiva nos estudos e na pesquisa. Para quem quiser ler mais sobre rotina e produção acadêmica / intelectual, separei mais alguns links:

Imagem de destaque: gastronomista.com.
Anúncios

2 comentários em “Como a rotina pode ser aliada da produção intelectual

  1. Curioso para saber qual o seu uso para o Evernote. O meu consiste em sair jogando tudo lá em um monte de pastas com nomes redundantes e abusar do evernote web clipper do chrome. De tempos em tempos, paro para reorganizar tudo, e daí ocorre o efeito de lembrar de boas ideias que ficaram para trás (você mencionou isso em um post mais antigo).

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s